domingo, 6 de abril de 2008

Pés de valsa


Com programação de segunda a domingo, os bailes voltados para a terceira idade revelam cenas de alegria

Agência Estado

"Depois que passei a freqüentar bailes, minha vida mudou", conta Celestina Liberatti de Oliveira, de 74 anos. "Quando enviuvei, só chorava em casa, entrei em depressão e fiquei doente. Um dia, uma inquilina minha me convidou para conhecer um baile, gostei tanto que saímos de lá às 4 da madrugada. Nunca mais parei e minha saúde está ótima." O discurso é comum entre os freqüentadores dos tradicionais bailes da terceira idade, ou melhor, bailes "nostalgia", como muitos preferem chamar. Há vários pela cidade, com programação de segunda a domingo.

Dançar, para Celestina, é sagrado. Todas as quintas-feiras e nos fins de semana, ela bate ponto no Club Carinhoso, no Ipiranga. Faz isso há 19 anos. A aposentada já circulou também por outros lugares de dança. Foi no dois-pra-lá-dois-pra-cá que fez algumas amizades, como Dina da Silva Batista, de 65 anos, outra que conseguiu levantar e sacudir a poeira após a morte do marido.

Dina conheceu até um senhor, que virou seu namorado. Mas, por causa dos bailes, surgiram vários desentendimentos e o romance acabou. "Ele queria dançar sozinho, como eu não aceitava, acabava indo sem ele também, para provocá-lo", confessa Dina. "Algumas vezes nos encontrávamos sem querer em um mesmo baile... Depois de cinco anos, cansei e não quis mais saber." Embalada pela banda que toca ao vivo bolero, valsa e outros estilos musicais, Dina desliza pelo salão sempre que é convidada por algum cavalheiro. Feliz, sempre agradece a Deus por esses momentos que a fazem esquecer dos problemas e se divertir para valer.

No dia da reportagem, o cavalheiro em questão era Albertino Chirrelli, de 78 anos. Mais um viúvo, só que recente. "Venho aqui para espairecer, para não ficar com a cabeça ruim dentro de casa e com dor na coluna de ficar sentado vendo televisão", pondera o aposentado. "Costumo dançar com minhas conhecidas do baile. Só não tiro (para dançar) as grã-finas, porque elas gostam de escolher muito e é chato levar um não."

Edna Cabral, de 62 anos, encontrou seu par em um salão de baile: o pé de valsa Fernando Assumpção, de 67. Agora vivem sob o mesmo teto. Separada, Edna redescobriu a dança depois que a filha ficou moça e ela passou a ter tempo disponível para sua própria diversão. Ele aprendeu os primeiros passos quando ainda era moleque, num dos lugares mais tradicionais da cidade, o União Fraterna.

Certa tarde - os bailes geralmente acontecem de dia -, Edna estava sentada com uma amiga em uma das mesas do Club Piratininga quando viu Fernando dando seus passos no salão. "Estava inspirada naquele dia, então, me levantei e o chamei para dançar apenas com um gesto", lembra. "Foi uma ousadia que deu certo. Começamos a sair, até que fomos morar juntos. Após anos sozinha, voltada só para o trabalho e para a criação da minha filha, redescobri a sexualidade. Me senti mulher novamente."

Fernando confessa que, depois de ter se separado da primeira esposa, teve vários romances com "bailarinas" - título dado àquelas que sabem dançar muito bem. Mas defende-se logo em seguida: "sou um homem que vai ao baile, não um homem de baile, daquele tipo viciado e mulherengo, embora tenha conhecido minhas namoradas dançando. Fui convidado para participar como figurante do filme Chega de Saudade, mas, como a Edna é ciumenta, não deixou", brinca Fernando, que é dono de uma oficina de funilaria.

Chega de SaudadeO longa-metragem, que estreou no último mês, dirigido por Laís Bodanzky , revela várias histórias que acontecem em um salão de baile. As filmagens foram realizadas no União Fraterna, que, para isso, passou por uma grande reforma. Antes mesmo do filme entrar em cartaz, a trilha sonora, com as canções mais tocadas nos salões, causou frisson no mercado.

Só mesmo quem conhece um salão de baile sabe como as situações são pitorescas. Acompanhar as piruetas de senhores e senhoras bailando, assim como as produções caprichadas, conhecer as histórias de habitués, ouvir uma boa banda tocando clássicos... é realmente fascinante.

Embora pessoas mais velhas sejam maioria, há também jovens, como a consultora de vendas Rose Lima, de 29 anos, que sempre se veste a caráter para tais ocasiões. "Adoro dançar e ouvir músicas antigas, já discotecas de hoje, com aquelas músicas eletrônicas 'putz-putz', eu detesto", diz a moça. "O astral daqui é muito bom, gosto de ver o pessoal na pista. Quando venho aqui, passo a semana inteira bem." Numa mesa do Club Homs, estavam reunidas três gerações: a própria Rose, seu namorado, o empresário José Augusto Paes, de 50 anos, e sua sogra, a viúva Dirce, de 72.

José começou a freqüentar os salões por causa da mãe. Os dois vão sempre juntos às "domingueiras" dançantes e, há pouco mais de um ano, ele leva também sua namorada. "Conhecer alguém que gosta de dançar, de bailes, ainda mais sendo nova, foi um acontecimento singular", fala o empresário. Como muitas que freqüentam os bailes, Dirce se recente da falta de cavalheiros que a tire para dançar, em meio a um mar de mulheres sozinhas e disponíveis.

Para não ficar sentada, ela lança mão dos "personals": dançarinos - jovens, bem-vestidos, cheirosos e educados - que cobram para dançar com as damas. "Às vezes, pago R$ 10,00 para cada seleção, que inclui cinco músicas. Mas há quem pague até R$ 60,00 para ter à disposição um dançarino durante todo o baile. Tem dois aqui que são os meus preferidos", fala Dirce, enquanto mostra um garoto de, no máximo, 20 anos. Há ocasiões em que as mulheres levam os garçons do Club Homs também para a pista - único lugar que oferece essa "cortesia". Para tal, a equipe tem aula de dança com os personals, antes de abrir as portas do salão.

Sempre acompanhada pelo marido, a executiva de Recursos Humanos, Márcia Silva, é uma das belas cinqüentonas que batem cartão no baile. "Estamos casados há 29 anos. A dança nos aproxima e resgata o romance", observa Márcia.

No ano passado, ela foi eleita a Miss Elegância do Club Homs. Pudera, a cada domingo, aparece com um modelito novo. "É um ritual que valorizo, não tem graça vir aqui desarrumada. "

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